apura br

Macro · 3 min de leitura

China e EUA sinalizam redução de tarifas agrícolas: o que muda para o Brasil

Acordo bilateral pode deslocar fluxos de soja e milho globais, com impacto direto sobre o saldo comercial brasileiro e a taxa de câmbio.

Publicado em 16 de maio às 19:22

China e EUA sinalizam redução de tarifas agrícolas: o que muda para o Brasil

Acordo bilateral pode deslocar fluxos de soja e milho globais, com impacto direto sobre o saldo comercial brasileiro e a taxa de câmbio.

A reaproximação comercial entre China e Estados Unidos inclui cortes tarifários e maior acesso ao mercado agrícola americano por Pequim. Historicamente, cada ponto percentual de redução na tarifa chinesa sobre soja americana desloca entre 1,5 e 3 milhões de toneladas de demanda — volume que hoje abastece exportadores brasileiros, segundo estimativas do USDA (2024).

O que aconteceu

China e Estados Unidos chegaram a um entendimento para expandir o comércio bilateral de commodities agrícolas, com reduções tarifárias recíprocas. O sinal foi dado em meio às negociações de trégua comercial iniciadas em Genebra em maio de 2025, segundo a CNN Brasil. O acordo ainda não tem alíquotas definitivas publicadas, mas a sinalização já movimentou mercados futuros de soja na CBOT.

O contexto é relevante: desde 2018, quando a guerra comercial elevou tarifas chinesas sobre produtos americanos a até 25%, o Brasil consolidou sua posição como principal fornecedor de soja à China, respondendo por cerca de 70% das importações chinesas do grão em 2023 (dados MDIC/Comex Stat).

A leitura quantitativa

O modelo de deslocamento de comércio (trade diversion) indica que uma reversão parcial das tarifas americanas pode reconfigurar entre 5% e 15% do fluxo atual de soja brasileira para a China — cenário condicional a cortes acima de 10 pontos percentuais nas alíquotas vigentes.

Para o Brasil, o canal de transmissão é duplo. Primeiro, via preço: menor demanda relativa por soja brasileira tende a pressionar o preço FOB Santos para baixo. Segundo, via câmbio: o agronegócio representa aproximadamente 50% da pauta exportadora nacional (MDIC, 2024), e qualquer compressão de receita em dólares reduz a oferta de divisas, pressionando o real. O BCB monitora esse vetor no seu modelo de projeção do balanço de pagamentos — o saldo em transações correntes já acumula déficit de US$ 43,8 bilhões em 12 meses até março de 2025 (Nota de Política Monetária, BCB, abril 2025).

A probabilidade de impacto cambial significativo (depreciação adicional do BRL acima de 3% em 6 meses) é estimada pelo nosso agregado em cerca de 28% no cenário de acordo amplo, e inferior a 10% no cenário de acordo parcial ou simbólico — que é o mais provável dado o histórico de negociações sino-americanas.

Comparação histórica

Em 2020, o acordo "Fase 1" entre China e EUA previu compras agrícolas americanas de US$ 36,5 bilhões em dois anos — meta que não foi cumprida integralmente. O Brasil não sofreu desvio significativo de demanda naquele ciclo porque a execução ficou 30% abaixo do prometido (Peterson Institute for International Economics, 2021). O padrão de promessas superestimadas é consistente com os ciclos anteriores de negociação bilateral.

O que monitorar

  • Alíquotas específicas publicadas pelo Ministério do Comércio da China (MOFCOM): o número concreto define a magnitude do desvio de comércio.
  • Posição dos estoques americanos de soja: USDA publica relatório WASDE mensalmente; estoque/uso acima de 8% nos EUA reduz pressão sobre preços globais.
  • Taxa de câmbio BRL/USD: correlação histórica de 0,62 entre preço da soja em Chicago e o real (BCB, série temporal 2015–2024).
  • Decisão do Copom em junho de 2025: ambiente externo adverso pode alterar o balanço de riscos e a comunicação sobre o ciclo de juros.
  • Volume embarcado nos portos de Paranaguá e Santos: dado semanal da Secex funciona como termômetro antecipado de demanda chinesa real.

Perguntas frequentes

P: O acordo entre China e EUA vai prejudicar as exportações de soja do Brasil? O risco existe, mas depende da magnitude dos cortes tarifários. Acordos anteriores, como o "Fase 1" de 2020, tiveram execução abaixo do prometido. O cenário de impacto relevante para o Brasil exige cortes tarifários acima de 10 pontos percentuais, o que ainda não foi confirmado.

P: Como esse acordo afeta o câmbio no Brasil? O agronegócio responde por cerca de 50% das exportações brasileiras (MDIC, 2024). Redução na demanda chinesa por soja brasileira comprime a entrada de dólares, o que tende a depreciar o real. O BCB monitora esse vetor no balanço de pagamentos.

P: Qual é a probabilidade de o Brasil perder mercado para os EUA na China? O agregado apura br estima entre 15% e 30% de probabilidade de desvio comercial relevante, condicionado à publicação de alíquotas concretas pelo MOFCOM e à capacidade logística americana de ampliar embarques no curto prazo.

Fonte primária

Análise baseada em notícia originalmente publicada por CNN Brasil:

China sinaliza cortes de tarifas e maior acesso ao mercado agrícola dos EUA

Continue lendo

As probabilidades vêm dos modelos descritos em /metodologia.