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Geopolítica · 3 min de leitura

Guerra Comercial EUA-China: Por Que o Conflito Tarifário Deve Durar Mais de Uma Década

Modelo de cenários indica que a disputa estrutural entre as duas maiores economias do mundo tem probabilidade superior a 70% de se estender além de 2030, independentemente do ciclo eleitoral americano.

Publicado em 16 de maio às 19:35

Guerra Comercial EUA-China: Por Que o Conflito Tarifário Deve Durar Mais de Uma Década

Modelo de cenários indica que a disputa estrutural entre as duas maiores economias do mundo tem probabilidade superior a 70% de se estender além de 2030, independentemente do ciclo eleitoral americano.

A disputa comercial entre Estados Unidos e China não é um evento pontual: trata-se de uma rivalidade estrutural entre as duas maiores economias do mundo — responsáveis juntas por cerca de 43% do PIB global (FMI, 2024). Modelos de ciclos tarifários históricos indicam que conflitos dessa magnitude raramente se resolvem em menos de uma década.

O que aconteceu

Em entrevista à CNN Brasil, o economista Rodrigo Zeidan avaliou que as tarifas impostas pelo governo Trump ampliaram as tensões bilaterais e, paradoxalmente, concederam vantagem estratégica à China. O argumento central: Pequim não opera sob pressão de ciclos eleitorais de quatro anos, o que lhe permite adotar estratégias de longo prazo sem o custo político imediato que Washington enfrenta.

Zeidan ressaltou que a China respondeu às tarifas americanas com retaliações calibradas — reduzindo exportações de minerais críticos e diversificando parcerias comerciais com o Sul Global — enquanto os EUA acumulam pressão inflacionária interna derivada do encarecimento de importações.

A leitura quantitativa

O conflito atual tem paralelos mensuráveis com ciclos anteriores. A guerra tarifária iniciada em 2018 elevou a tarifa média americana sobre produtos chineses de 3,1% para 19,3% até 2020 (Peterson Institute for International Economics). No ciclo atual, esse patamar já ultrapassou 30% em diversas categorias, segundo dados do U.S. Trade Representative (USTR, 2025).

Três cenários condicionais emergem da análise:

  • Cenário de desescalada negociada (probabilidade estimada: 20–25%): requer concessões mútuas substanciais antes das eleições de meio de mandato americanas em 2026. Historicamente, acordos parciais como a "Fase 1" de janeiro de 2020 reduziram tensões por no máximo 18 meses antes de nova escalada.
  • Cenário de equilíbrio tenso (probabilidade estimada: 50–55%): manutenção de tarifas elevadas com negociações pontuais, sem resolução estrutural. É o cenário-base consistente com a trajetória pós-2018.
  • Cenário de escalada ampliada (probabilidade estimada: 20–25%): extensão do conflito para setores de tecnologia, energia e finanças, com risco de fragmentação do sistema multilateral de comércio (OMC).

A assimetria de horizontes temporais é o fator mais relevante: líderes chineses operam com janelas de planejamento de 5 a 15 anos (Planos Quinquenais), enquanto a Casa Branca enfrenta pressão eleitoral a cada 24 meses.

Comparação histórica

O conflito comercial EUA-Japão dos anos 1980–1995 é o comparativo mais citado em literatura econômica. Aquele ciclo durou 15 anos, envolveu tarifas setoriais, acordos de restrição voluntária e pressão cambial (Plaza Accord, 1985), e só se dissipou quando o Japão entrou em estagnação econômica prolongada. A China de 2025, com PIB nominal de US$ 18,5 trilhões (Banco Mundial, 2024), apresenta resiliência estrutural muito superior à do Japão de 1985.

O que monitorar

  • Exportações de terras-raras chinesas: Pequim controla cerca de 60% da produção global (USGS, 2024); qualquer restrição adicional eleva o custo de retaliação para os EUA.
  • Inflação ao consumidor americano (CPI): alta persistente acima de 3,5% ao ano aumenta a pressão doméstica por recuo tarifário em Washington.
  • Eleições de meio de mandato nos EUA (novembro de 2026): resultado define margem de manobra do Executivo para negociar sem desgaste político.
  • Adesões ao CPTPP: entrada de novos membros no acordo transpacífico sem os EUA sinaliza aprofundamento da reconfiguração comercial global.
  • Indicadores de nearshoring: fluxo de investimento direto estrangeiro para México, Vietnã e Índia mede velocidade de desacoplamento das cadeias produtivas sino-americanas.

Perguntas frequentes

P: A guerra comercial entre EUA e China vai acabar em breve? O cenário-base da análise quantitativa aponta para continuidade do conflito além de 2026, com probabilidade estimada acima de 75%. Conflitos tarifários estruturais entre grandes potências raramente se resolvem em menos de uma década, conforme o precedente EUA-Japão (1980–1995).

P: Por que a China leva vantagem no longo prazo segundo os economistas? A principal vantagem apontada é a ausência de ciclos eleitorais curtos. Líderes chineses podem sustentar políticas de retaliação por anos sem custo eleitoral imediato, enquanto o governo americano enfrenta pressão a cada dois anos.

P: O Brasil é afetado pela disputa tarifária entre EUA e China? Sim. O Brasil exporta commodities para ambos os blocos e pode se beneficiar de desvio de comércio no curto prazo, mas fica exposto à desaceleração global caso o conflito evolua para o cenário de escalada ampliada, que comprime demanda por matérias-primas.

Fonte primária

Análise baseada em notícia originalmente publicada por CNN Brasil:

Disputa entre EUA e China “está longe de acabar”, diz Rodrigo Zeidan

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As probabilidades vêm dos modelos descritos em /metodologia.