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Geopolítica · 3 min de leitura

"Método Bukele" no Brasil: o que dizem os dados sobre segurança e autoritarismo

A adoção do modelo salvadorenho reduziu homicídios em El Salvador em mais de 70%, mas concentrou poder executivo e suspendeu garantias constitucionais — tradeoff que define o debate brasileiro.

Publicado em 16 de maio às 19:35

"Método Bukele" no Brasil: o que dizem os dados sobre segurança e autoritarismo

A adoção do modelo salvadorenho reduziu homicídios em El Salvador em mais de 70%, mas concentrou poder executivo e suspendeu garantias constitucionais — tradeoff que define o debate brasileiro.

O "método Bukele" combina megaoperações prisionais, estado de exceção e vigilância massiva. Em El Salvador, a taxa de homicídios caiu de 52,2 por 100 mil habitantes em 2021 para cerca de 2,4 em 2024, segundo o Ministério da Justiça salvadorenho — redução de 95% em três anos. O custo institucional, porém, é documentado: mais de 80 mil pessoas presas sob regime de exceção desde 2022.

O que aconteceu

Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, manifestou apoio público ao secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, citando o modelo de Nayib Bukele como referência desejável para o Brasil. A declaração ocorre em contexto de pressão política sobre Derrite após operações policiais com alto número de mortes no estado.

A referência ao modelo salvadorenho não é nova no campo da direita brasileira, mas ganhou tração eleitoral com a aproximação das eleições municipais e estaduais de 2026. Veja a cobertura da CNN Brasil.

A leitura quantitativa

O modelo Bukele tem dois componentes mensuráveis distintos — e é importante não tratá-los como inseparáveis.

Componente 1 — eficácia em homicídios: El Salvador saiu do posto de país mais violento do mundo para taxas comparáveis às de países europeus em menos de quatro anos. A queda de 52,2 para 2,4 homicídios por 100 mil habitantes (dados do governo salvadorenho, 2021–2024) é estatisticamente atípica em qualquer série histórica de segurança pública.

Componente 2 — custo institucional: O estado de exceção, renovado consecutivamente desde março de 2022, suspendeu direitos processuais básicos. Human Rights Watch e Anistia Internacional documentaram mais de 7 mil casos de detenções arbitrárias confirmadas. A taxa de encarceramento de El Salvador passou a ser a maior do mundo: aproximadamente 1.086 presos por 100 mil habitantes em 2024, segundo o World Prison Brief.

Para o Brasil, o cenário condicional relevante é: se São Paulo ou outro estado adotasse medidas análogas, o ponto de partida é radicalmente diferente. São Paulo registrou 8,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2023 (SSP-SP) — já abaixo da média nacional de 22,4 (Atlas da Violência 2024, IPEA/FBSP). A margem de queda dramática que Bukele encontrou simplesmente não existe no mesmo grau.

Comparação histórica

O Brasil já experimentou períodos de "mão de ferro" em segurança pública. O Ronda do Quarteirão no Ceará (2007–2010) e o Pacto pela Vida em Pernambuco (2007–2014) reduziram homicídios em 30% a 40% sem suspensão de garantias constitucionais, segundo o IPEA. Isso sugere que ganhos significativos são alcançáveis dentro do marco democrático — embora em escala e velocidade menores do que El Salvador.

O que monitorar

  • Posicionamento de Derrite até outubro de 2025: declarações explícitas de adesão ao modelo Bukele funcionarão como termômetro do apetite eleitoral pelo tema em São Paulo
  • Dados de letalidade policial em SP: o estado registrou 480 mortes em intervenções policiais no 1º trimestre de 2025 (SSP-SP); trajetória desse número condiciona a narrativa de "eficácia"
  • Resposta do STF a estados de exceção locais: qualquer tentativa de suspender garantias processuais em nível estadual enfrentaria controle de constitucionalidade imediato
  • Pesquisas de opinião sobre segurança pública em 2026: aprovação de Bukele em El Salvador supera 85% (CID Gallup, 2024); o quanto esse dado ressoa no eleitorado brasileiro é variável-chave

Perguntas frequentes

P: O método Bukele funcionaria no Brasil? A comparação direta é metodologicamente problemática. El Salvador tinha taxa de homicídios 6x maior que a média brasileira antes das medidas. Estados como São Paulo já operam em patamares relativamente baixos, o que limita o impacto potencial de abordagens similares.

P: O que é exatamente o estado de exceção adotado em El Salvador? É um regime jurídico que suspende direitos constitucionais como habeas corpus e prazo máximo de detenção sem julgamento. Em El Salvador, está em vigor desde março de 2022 e foi renovado mensalmente pelo parlamento por mais de dois anos consecutivos.

P: Eduardo Bolsonaro tem poder para implementar algo parecido no Brasil? Como deputado federal, Eduardo Bolsonaro não tem poder executivo direto. A implementação de qualquer política de segurança pública depende de governadores estaduais e, para mudanças constitucionais, de maioria qualificada no Congresso Nacional — cenário de baixa probabilidade no arranjo legislativo atual.

Fonte primária

Análise baseada em notícia originalmente publicada por CNN Brasil:

Entenda o “método Bukele” citado por Eduardo Bolsonaro em apoio a Derrite

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As probabilidades vêm dos modelos descritos em /metodologia.