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Macro · 3 min de leitura

OIA prevê déficit global de açúcar em 2026/27 com queda de 2 milhões de toneladas na produção

A Organização Internacional do Açúcar projeta déficit no mercado global para 2026/27, com produção recuando 2 milhões de toneladas sob influência do El Niño — cenário que pressiona preços e expõe economias importadoras.

Publicado em 18 de maio às 15:51

OIA prevê déficit global de açúcar em 2026/27 com queda de 2 milhões de toneladas na produção

A Organização Internacional do Açúcar projeta déficit no mercado global para 2026/27, com produção recuando 2 milhões de toneladas sob influência do El Niño — cenário que pressiona preços e expõe economias importadoras.

O mercado global de açúcar deve registrar déficit em 2026/27, segundo projeção da Organização Internacional do Açúcar (OIA). A queda estimada de 2 milhões de toneladas na produção mundial é atribuída ao risco climático do El Niño, que historicamente reduz a produtividade canavieira em regiões-chave como Índia e Tailândia.

O que aconteceu

A OIA divulgou previsão indicando que o balanço global de açúcar passará de superávit para déficit no ciclo 2026/27. O principal vetor é a retração esperada na oferta, estimada em 2 milhões de toneladas abaixo da demanda projetada. O risco do El Niño — fenômeno climático que eleva temperaturas e altera padrões de chuva em regiões tropicais — é apontado como fator central na redução da produtividade agrícola. A notícia foi reportada pela CNN Brasil.

O Brasil, maior produtor e exportador mundial de açúcar, ocupa posição ambígua nesse cenário: pode se beneficiar de preços mais altos no mercado internacional, mas também enfrenta pressão interna sobre inflação alimentar caso parte da produção seja direcionada à exportação em detrimento do abastecimento doméstico.

A leitura quantitativa

Déficits no balanço global de açúcar têm correlação histórica com alta nos preços internacionais. No ciclo 2015/16, quando o mercado registrou déficit de aproximadamente 6 milhões de toneladas, o açúcar bruto (NY11) chegou a superar US$ 0,20/libra-peso. Um déficit de 2 milhões de toneladas é considerado moderado, mas suficiente para sustentar prêmio de risco nos contratos futuros.

Para o Brasil, o canal de transmissão mais direto é o IPCA do subgrupo "açúcares e derivados", monitorado pelo IBGE. Em 2021, quando o câmbio depreciado e a demanda externa pressionaram a oferta doméstica, esse subgrupo acumulou alta superior a 40% no ano. O modelo indica que um novo ciclo de déficit externo, combinado com dólar acima de R$ 5,50 (referência BCB, maio 2026), eleva a probabilidade de repasse inflacionário ao consumidor brasileiro para o intervalo de 55%–70%, condicionado à política de alocação das usinas entre açúcar e etanol.

A flexibilidade do setor sucroenergético brasileiro é variável-chave: usinas podem ajustar o mix de produção entre açúcar e etanol em resposta a preços relativos. Se o açúcar internacional se valorizar acima de US$ 0,22/libra-peso, o modelo sugere migração de capacidade para açúcar, o que pode aliviar parcialmente o déficit global mas reduzir a oferta interna de etanol.

Comparação histórica

O último grande ciclo deficitário consecutivo ocorreu entre 2011/12 e 2012/13, quando o mercado acumulou déficit superior a 10 milhões de toneladas em dois anos. Naquele período, o índice de preços ao produtor rural (IPA-Agro da FGV) para cana-de-açúcar registrou alta acumulada de 28%. O déficit projetado para 2026/27 é menor em magnitude, mas o contexto de El Niño simultâneo em múltiplos países produtores aumenta a correlação dos choques de oferta.

O que monitorar

  • Confirmação do El Niño: o INMET e o NOAA publicam atualizações mensais sobre a intensidade do fenômeno — leituras acima de +1,5°C no índice ONI elevam o risco de quebra de safra na Ásia.
  • Mix açúcar/etanol das usinas brasileiras: dados da UNICA (quinzenais) indicam a alocação em tempo real da produção nacional.
  • Câmbio BRL/USD: depreciação adicional amplifica o incentivo exportador e o risco inflacionário doméstico.
  • Posição dos fundos no NY11: o relatório COT (CFTC, semanal) sinaliza se o mercado financeiro já precificou o déficit projetado.
  • Safra indiana 2026/27: a Índia responde por cerca de 15% da produção global; qualquer revisão do USDA para a produção indiana altera materialmente o balanço.

Perguntas frequentes

P: O déficit de açúcar previsto pela OIA vai aumentar o preço do açúcar no Brasil? A probabilidade de repasse ao consumidor existe, mas depende do câmbio e do mix de produção das usinas. O modelo indica risco elevado (55%–70%) de pressão no subgrupo "açúcares e derivados" do IPCA caso o dólar permaneça acima de R$ 5,50.

P: O que é El Niño e por que afeta a produção de açúcar? El Niño é um fenômeno climático de aquecimento do Pacífico Equatorial que reduz chuvas em regiões produtoras como Índia e Tailândia, diminuindo a produtividade da cana-de-açúcar. Historicamente, safras indianas recuam entre 8% e 15% em anos de El Niño moderado a forte.

P: O Brasil pode se beneficiar do déficit global de açúcar? Sim, via preços de exportação mais altos. Contudo, o benefício ao setor exportador pode vir acompanhado de menor oferta interna e pressão inflacionária, criando trade-off entre receita cambial e estabilidade de preços domésticos.

Fonte primária

Análise baseada em notícia originalmente publicada por CNN Brasil:

OIA prevê que mercado global de açúcar entre em déficit em 2026/27

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As probabilidades vêm dos modelos descritos em /metodologia.